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  • Gabriela De Laurentis

Novo Comportamento e o fazer à mão

Actualizado: 28 de mar de 2019

Vivemos novos tempos com o surgimento de uma nova economia – circular, colaborativa e compartilhada. Dessa maneira, as escolhas e comportamento das pessoas estão mudando. Há uma procura por uma vida mais natural e justa, apoiada em valores mais humanos, conscientes, sustentáveis e uma busca por uma vida mais leve e plena(1). Lidamos com um consumidor mais conectado, tecnológico, consciente, responsável com a sociedade e meio ambiente, ativo e participativo, curioso, em busca de mais informação e autenticidade, e mais adaptável à instabilidade dos tempos atuais pensando globalmente e atuando localmente(2). Os tempos de consumo são outros, visando uma escolha mais consciente e preocupada sobre o que comemos, o que usamos e o que vestimos. Queremos saber o que e quem está por trás dos produtos. O mesmo se aplica à informação e cultura que consumimos.


Como resposta a esse movimento, a moda tem contestado o fast fashion, e as grandes cadeias e marcas estão tendo que se readaptar aos novos tempos de novos significados. São tempos de slow living, em que o consumismo desenfreado está dando lugar a um consumo mais consciente, informado e de apoio ao produtor local. Nessa perspectiva sustentável, dentro da concepção do slow fashion e da valorização da produção local, as marcas pequenas e independentes têm ganhado espaço no cenário mundial. De modo que vêm despertando interesse e preocupação nas grandes marcas, em se pensar mais em sustentabilidade e nas suas respectivas cadeias de produção, e maneiras de consumo. Sem falar também, de como lidar com o resíduo produzido, e se minimizar o impacto negativo no ambiente. Dos impactos gerados pela indústria têxtil vêm emergindo discussões quanto a alguns processos e produtos utilizados na cadeia têxtil e abrindo novas perspectivas de atuação para os designers.(3) Apesar da tecnologia na moda, com sublimação digital na estamparia, o laser e a impressão 3D, a criação de novas matérias-primas, o fator humano é essencial: “Podemos ter a melhor tecnologia do mundo, mas sempre tem que ter um fator humano envolvido”.(4)

A sustentabilidade tem se tornado cada vez mais imprescindível às marcas de moda. Antes o que era um diferencial estratégico, uma vantagem competitiva, atualmente é parte da responsabilidade da empresa. Não se pensar e se planejar visando práticas sustentáveis é ser em parte omisso, e não ter posicionamento e compromisso com o mundo em que vivemos. A sustentabilidade se baseia nos 3 pilares: econômico, ambiental e social (Triple Bottom line). Quando falamos do social, incluímos também a valorização de culturas e saberes tradicionais locais, a recuperação da identidade.


Com um olhar na cultura e identidade, podemos destacar o movimento de se voltar ao natural e à própria cultura. Buscando trabalhar em rede, e integrados com pessoas que têm valores e sintonias semelhantes. Após uma industrialização exacerbada, a resposta atual é uma busca por uma vida mais natural e sustentável, de mão na massa e consciência do coletivo. Menos industrialização e mais feito à mão. A isso destacamos:

  • Revalorização do conhecimento tradicional

  • Valorização da cultura e identidade local

  • Valorização do feito à mão e do universo dos ofícios manuais


É pensando nisso, que voltamos aos nossos saberes ancestrais pré-industrialização, em que o feito à mão era algo natural e único, era como produzíamos. Com o advento da industrialização, as ferramentas foram modernizadas, assim como os meios e processos de produção. Porém também, o saber manual foi perdendo espaço para as máquinas, e para a produção em larga escala. Em muitos países, como o Brasil, o feito à mão era muitas vezes visto como algo menor, ou de menor qualidade. Ao contrário de outros países como a Alemanha, que apesar da industrialização, ainda valorizava o produto e saber manual, assim como a pequena escala e, a produção única, exclusiva e especializada.


O universo dos ofícios, o aprendizado manual e o passar do conhecimento através de gerações, ganharam grande procura e espaço nos últimos anos, devido a essa mudança de pensamento e comportamento. A busca tem sido através de pesquisas, ou de profissionais e pessoas por hobby querendo se capacitar ou aprender algum ou alguns ofícios: marcenaria, joia autoral, cozinha, pintura, bordado, costura, cerâmica, jardinagem, tingimento natural, impressão botânica, estamparia, encadernação, lettering, entre outros.


Antes nossos avós aprendiam a costurar na escola ou com os pais, o que se perdeu na educação tradicional atual. No entanto, com essa volta da procura dos ofícios, muitos lugares começaram a abrir ou oferecer cursos manuais. O fazer à mão se tornou algo mais comum e valorizado, fazendo com as pessoas se sintam estimuladas a ingressar e saber mais sobre esse universo tão único e especial.


O fazer à mão é uma forma de contato com a matéria, com a técnica, e uma forma de terapia. De nos conhecermos melhor, e mergulharmos num vasto mundo de saberes e aprendizados, apreciando a prática e o processo.



Arte Foto: @cargamaxima

Carga Máxima (Perú): Diseño & Pintura Letras y estilos de la gráfica popular peruana

Foto: Rodrigo Lopes



Referências:

1 Guia: Slow Living, de Bruna Miranda (Brasil)

2 Pesquisa: 10 Tendências de Consumos Globais para 2018, de Euromonitor (Reino Unido)

3 Publicação: Corante natural e produção local, de Patricia Muniz et al (Brasil)

4 Programa: El nuevo vestir, capítulo 1: La revolución de la sublimación digital, de Sofia Calvo (Chile)



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